Ras Tafari e a Profecia Etíope

Ras Tafari √© um movimento pan-africano com apresenta√ß√Ķes e messi√Ęnicas, que se originaram no despertar de uma revela√ß√£o prof√©tica feita p√īr Marcus Garvey na Jamaica. Desde sua inser√ß√£o na d√©cada de 30, o movimento cresceu de uma pequena localidade, em West Kingston √† um movimento internacional de repatria√ß√£o negra.

Atrav√©s das primeiras tr√™s d√©cadas de seu desenvolvimento, o movimento foi banido da sociedade jamaicana. Peri√≥dicas confronta√ß√Ķes com autoridades coloniais brit√Ęnicas marcaram os Rastas em suas inten√ß√Ķes revolucionarias, tanto cultural quanto espiritualmente. A metade de d√©cada de 60 trouxe um per√≠odo de transi√ß√£o no entendimento social em rela√ß√£o ao Rasta e a sua forma de se viver

Depois da publica√ß√£o em 1960 da “Reportagem sobre o Movimento Ras Tafari I em Kingston (capital da Jamaica)” veiculada pela Universidade local, subsequentes eventos e um clima de positivismo tornaram-se publicamente not√≥rios. Essa mudan√ßa na percep√ß√£o publica serviu para legitimar a vis√£o ampla do significado da Vida que os Rastas tanto propunham, como uma responsabilidade cultural ao legado da escravid√£o e do colonialismo na Jamaica.

Durante esse período de transição na década de 60, um grande numero de descontentes e jovens da classe media juntaram-se aos miseráveis que moravam nas favelas, e dali formaram o esteio do movimento Ras Tafari I.

Esse crescimento acelerado foi acompanhado pela populariza√ß√£o da doutrina Rasta atrav√©s da comunica√ß√£o de massa e tamb√©m artisticamente . os ritimos de musica Ska, rocksteady e o reggae disseminaram nas d√©cadas de 60 e 70 os valores e os sentimentos dos Dreadlocks (um dos termos empregados para identificas um Rastas) , como um apelo alternativo depois das √©pocas de pos-colonialismo. 


OS ISRAELITAS 

Como um a cultura/ filosofia, Ras Tafari I √© uma forma de Zionismo Negro que segue a leitura da B√≠blia (na vers√£o et√≠ope Kebra Negasta- “Gloria dos Reis”, diferente da vers√£o europ√©ia King James ) como credo milenar da reden√ß√£o africana. Identificam-se a si pr√≥prios como os Israelitas do Velho Testamento , Provendo uma seq√ľ√™ncia de interpreta√ß√Ķes m√≠tico-po√©ticas da Hist√≥ria da Diaspora Negra. Capturados e vendidos dentro da escravid√£o pelos europeus , os Rastas v√™em os africanos e seus descendentes no oeste como vivendo na moderna Babil√īnia, a sociedade branca e opressora que significou mais de 400 anos de persegui√ß√£o e colonialismo.


A emancipa√ß√£o oficiosa para a escravid√£o nas planta√ß√Ķes de a√ß√ļcar na Jamaica veio em 1834, mas a independ√™ncia politica jamaicana da Gr√£-Bretanha foi assegurada somente em 1962, depois de 97 anos como col√īnia. Cerca de 95% da popula√ß√£o da Jamaica √© de descend√™ncia africana, o que determinou uma consci√™ncia dentro do movimento Ras Tafari I em considerarem-se “estrangeiros numa terra estranha”, referindo-se a pr√≥pria Jamaica.


A TERRA PROMETIDA 

No idioma de reden√ß√£o dos Rastas , a √ļnica salva√ß√£o para o negro do Oeste √© se repatriar a seu lar ancestral : Eti√≥pia – √Āfrica . Enquanto opini√Ķes dentro do movimento divergem como precisamente a repatria√ß√£o ocorrer√° e sua natureza , espiritual ou f√≠sica , Ras Tafari I reconhece que isso ser√° iminente e sinalizar√° a total invers√£o da estrutura de poder vigente no mundo.

Ao contrario de outras forma√ß√Ķes culturais pan-africanas ; p√īr exemplo, Santeira em Cuba, Vudu no Haiti, Candombl√© no Brasil e Xang√ī em Trinidade, Ras Tafari I √© um fen√īmeno do seculo XX sem antecedente cultural no Oeste ou heran√ßa da cultura central – africana.

Os rituais Rastas mant√™m uma continuidade na identidade africana e nas tradi√ß√Ķes associadas como p√īr exemplo rituais de dan√ßa e tambores, praticas de cura e cren√ßa no poder m√°gico das palavras – “word, sound & Power” (“Palavra , Som & Poder).

Imagens da realeza Etíope, eventos e personagens do Velho Testamento, uma forma ritualística de se falar e o uso de longos cabelos, chamados de Dread Locks têm sido adotados e transformados nos símbolos e na tradição dos Rastas . No contexto da Diaspora, essa tradição é melhor entendida como uma resposta a ideologia da raça dominante.

Essa etnia se refere √† auto – conscientiza√ß√£o da cultura com o intuito de disseminar uma nova mensagem, juntamente com sua simbologia e religiosidade. O Etiopianismo anunciou uma nova fase dos rituais jamaicanos , onde os Rastas identificaram-se como “crian√ßas”, tanto no sentido espiritual como geneal√≥gico, como que mantendo o parentesco com os antigos Israelitas , que seguiram Mois√©s atrav√©s do Mar Vermelho s√©culos atr√°s.

As cr√īnicas b√≠blicas do “Ex√≠lio” e do “Retorno a Terra Prometida” serviram como documento m√≠tico para a pris√£o dos escravos no Novo Mundo , e de seu anseio p√īr reden√ß√£o fora da escravid√£o. O uso de velhos materiais para a cria√ß√£o de uma nova estrutura prof√©tica fez com que surgisse a imagem da Eti√≥pia- Israel como sendo uma na√ß√£o negra. Faz parte da tradi√ß√£o Rasta , p√īr Exemplo , cantar e agradecer o “Sagrado Monte Si√£o”(HOLY MOUNT ZION) que √© reconhecido pela f√© como sendo o lar de Jah Ras Tafari I . Esse processo serviu para cristalizar a soberania e a legitimidade africana numa apar√™ncia pol√≠tico- religiosa √ļnica.


“OLHEM PRA AFRICA” 

Atrav√©s de referencias b√≠blicas √† Eti√≥pia, por exemplo no salmo 68:31, “Eti√≥pia logo estender√° Suas m√£os a Deus”, e nos Atos dos Ap√≥stolos 8:27,”pessoas de descend√™ncia africana aprendam a reconhecer seu pa√≠s perdido e a heran√ßa nas referencia a Eti√≥pia e et√≠opes”. Assim, os Rastas come√ßaram a tratar com carinho todas as refer√™ncias et√≠opes na b√≠blia, pois ali havia a promessa libertadora , e que , quando contrastava com a indignidade da escravid√£o nas planta√ß√Ķes, mostravam o negro numa luz humana e digna.

√Č na base do cl√°ssico Etiopianismo que Associa√ß√£o do Progresso Universal do Negro e o movimento “Volta - a- √Āfrica” liderada p√īr Marcus Garvey √© bem conhecida. A filosofia do nacionalismo racial, proposta p√īr Garvey, era um conceito √©tnico, casando o Etiopianismo e a consci√™ncia racial derivada do nacionalismo pan-africano. “Atrav√©s da consci√™ncia racial, membros de uma ra√ßa se presente e aspirando pelo futuro”.

Um grupo racialmente consciente √© mais que uma mera agrega√ß√£o de indiv√≠duos distintos zoologicamente de outros grupos √©tnicos. √Č uma luta social unida com dire√ß√£o √† realiza√ß√£o pessoal e do grupo com o intuito de alcan√ßar uma qualidade de vida que lhe √© pr√≥pria. Portanto , √© um grupo conflitante e a consci√™ncia racial √© por si um resultado do conflito. “A ra√ßa de um grupo embora n√£o significante intrinsicamente, se torna um s√≠mbolo de identidade que serve para intensificar o senso se solidariedade”.

Para Garvey ser negro significava ser africano, “em casa ou no estrangeiro”, e a identidade racial estipulava direitos nacionais. Sob o t√≠tulo “√Āfrica para os Africanos” , Garvey relan√ßou a tradi√ß√£o et√≠ope dentro de um programa politico para a liberta√ß√£o dos negros. A vis√£o de Garvey da ‘reden√ß√£o africana’ foi e permanece radical no sentido que, pela primeira vez na historia, o povo negro era reconhecido universalmente como Africanos no contexto de um movimento de massa com popularidade internacional.

O que √© √ļnico aos Rastas da Jamaica , na tradi√ß√£o emancipadora africana √© sua direta identifica√ß√£o com o Estado Teocr√°tico da Eti√≥pia, sob a reg√™ncia “eterna” do Imperador Haile Selassie I , intitulado Jah Ras Tafari I. Modelando-se como a reincarna√ß√£o dos antigos Israelitas, os Rastas usam o passado b√≠blico da teocracia judaica para formar sua etnia como uma fam√≠lia , uma na√ß√£o .

A frase prof√©tica mais not√°vel atribu√≠da a Marcus Massiah Garvey afirma, “Olhem para a √Āfrica! Quando um Rei for coroado, o dia da reden√ß√£o estar√° nas m√£os”. A coroa√ß√£o em 2 de novembro de 1930 do imperador Haile Selassie I da Eti√≥pia, formalmente intitulado Ras Tafari I foi interpretada como a confirma√ß√£o da profecia.

Ras significa “cabe√ßa , pr√≠ncipe” em aramaico e Tafari ,”Sem medo”.

Foi traduzido tambem pelos pioneiros do movimento Rasta a significar “Criador”. Haile Selassie I , 225’descendente do Rei Salom√£o e da Rainha de Sheba, recebeu os t√≠tulos sagrados escritos na b√≠blia que foram reservados para o advento da Segunda vinda: Rei dos reis, Senhor dos senhores e Le√£o conquistador da Tribo de Jud√°.


O PODER DA TRINDADE 

Na fé dos Rastas, Haile Selassie é reverenciado como Jah Ras Tafari I, o Messias , o Cristo Negro que ascendeu ao Trono do Rei Davi em Adis Ababa, oficializando a promessa de uma nova ordem espiritual. Como defensor do Trono contra o ataque fascista de Mussolini em 1935, como um dos chefes- arquitetos do nacionalismo pan-africano atraves da fundação da OAU em Adis Ababa em 1963 e , mais tarde como monarca Рembaixador do Estado independente mais velho da Africa, a Etiópia , o Imperador Selassie conseguiu o respeito de inumeraveis negros e foi reconhecido como o defensor de união e liberdade africana.

Haile Selassie √© um nome sagrado , que traduzido significa “Poder da Trindade”. Em todas as antigas religi√Ķes encontra-se a mesma analogia √† Primeira Lei de Deus , a√ß√£o – rea√ß√£o – equil√≠brio. No cristianismo essa mesma f√≥rmula √© reconhecida no Pai- Filho – Espirito santo; no hinduismo, vishnu- krishna- brahma . Porem , o que autenticava a for√ßa verdadeira do Ras Tafari era a personifica√ß√£o da Primeira Lei em uma s√≥ pessoa, Haile Selassie I.


O COME√áO em KINGSTON 

Antes mesmo da explos√£o da guerra √ćtalo- Et√≠ope em 1935, uma fotografia de Haile Selassie I , em veste de guerreiro em Amhara, circulou pelas favelas de Kingston juntamente com um artigo do Jornal Times no dia 7 de dezembro. De acordo com a reportagem, originalmente atribu√≠da a um agente da propaganda fascista italiana, o Imperador Selassie era o mentor da Ordem Nyahbinghi. Essa ordem era internacionalmente reconhecida como uma sociedade africana secreta dedicada a derrubar a domina√ß√£o branca e colonial. O nome Nyahbinghi significava “morte aos europeus”.

Na Jamaica , os primeiros aderentes da f√© Ras Tafari I tornaram esse artigo quase como a um chamado e procuraram alinhar-se espiritualmente ao Imperador Selassie, participando efetivamente da Ordem Nyahbinghi. A palavra Nyahbinghi foi rapidamente adaptada ao vocabul√°rio Rasta como protesto racial, e tornou-se a significar ‘morte aos opressores negros e brancos’.

Muitas comunidades Rastas come√ßaram a identificaram-se como Nyahs, e na sordidez de West Kingston, uma milit√Ęncia do novo movimento come√ßou a se desenvolver. Em 1960, a Universidade de West Indies patrocinou uma reportagem sobre o movimento Ras Tafari I e sua rela√ß√£o com a sociedade jamaicana em geral. Tal reportagem foi o resultado de um pedido p√īr parte da comunidade Rasta que queixava-se da persegui√ß√£o policial e da desinforma√ß√£o p√ļblica. At√© ent√£o Jamaica, ao contr√°rio do que muitas pessoas pensam, a maioria era (e ainda √©) crist√£, enquanto que os Rastas eram vistos sem qualquer status social, at√© porque a sua maioria vivia em condi√ß√Ķes paup√©rrimas.


A CULTURA NYAHBINGHI

Na reportagem, Nyahbinghi foi associado a valores violentos e com elementos revolucionários. Os Nyah eram publicamente identificados por seus longos cabelos, os Dreadlocks, e pelo uso sagrado , mas desafiador e anti-social da maconha (ganja). Os Nyahbinghis dentro do movimento Ras Tafari I atual é um longo termo que em adição a seu significada original tambem cobre outros importantes aspectos da vida cultural, incluindo:

A Ordem Nyahbinghi , uma seção dentro do movimento Ras Tafari I em geral, também reconhece o Governo Teocrático de Haile Selassie I. Os membros da primeira geração Nyah fazem parte da formação do movimento Rasta.

Os rituais de culto e adora√ß√£o s√£o patrocinados por membros da comunidade . As cerim√īnias Nyahbinghis s√£o festejadas regularmente em varias datas em toda a ilha da Jamaica. Comemora√ß√Ķes anuais incluem o aniversario do Imperador Haile Selassie I (23 de julho), a data da coroa√ß√£o do Imperador (2 de novembro) e o aniversario de visita do Imperador a Jamaica em 1966 (21 de abril). Os Nyahbinghis tamb√©m realizam Assembl√©ias ou “Congrega√ß√Ķes” que s√£o consideradas como “servi√ßos divinos”

A musica com os tambores , a dança e as palavras fazem parte da celebração e do culto e tambem são denominadas de Nyahbinghi. Como parte da ressureição dada batida africana, a musica Nyahbinghi ou Heart Beat (batidas do Coração) está ligada às harpas do Rei Davi, usadas para compor os salmos reais do Velho testamento.

As congrega√ß√Ķes Nyahbinghi usualmente duram de tr√™s a sete dias, tempo para a comunidade se reunir e revitalizar a f√© Ras Tafari atrav√©s de atividades como por exemplo tocar tambores, cantar ora√ß√Ķes , ler trechos da b√≠blia , fumar maconha e dan√ßar. No centro da celebra√ß√£o Nyahbinghi est√° o Tabern√°culo onde acontece o ritual. Com as cores da bandeira da Eti√≥pia (verde ouro e vermelho), os Nyahs chamam a Israel seu destino providencial – “√Āfrica, sim! Jamaica, n√£o!” “Jah chama os cantores e tocadores de instrumentos”, “Repatria√ß√£o agora!”.

O tabern√°culo Nyahbinghi √© a sala circular do trono do arco- √≠ris (representado pelas cores da bandeira da Eti√≥pia), o poder sagrado do solo de onde emana o terremoto, a luz, o trov√£o, o fogo e o enxofre do Armagedon. O “chalice”( c√°lice , cachimbo Rasta) Passa de m√£o em m√£o em volta do altar , ativando ritualisticamente os s√≠mbolos do calor , ar e agua , as for√ßas primais da cria√ß√£o . Atraves da Palavra, Som & Poder (Word, Sound & Iwah) a f√© est√° unida com a cabe√ßa Criadora (Ras Tafari) num tipo de telepatia m√≠stica, que tem o intuito de cantar a queda da babilonia , para livrar a Terra da perversidade e restaurar a ordem natural da Cria√ß√£o e seu estado original de perfei√ß√£o. Fora do Tabern√°culo fica uma grande fogueira onde um Homem de fogo permanece em vig√≠lia para manter as chamas da justi√ßa e do julgamento acesas at√© a hora da repatria√ß√£o chegar.


“A MUSICA do CORA√á√ÉO”

De acordo comum relato de um observador do movimento em 1953 havia uma falta acentuada na batida dos tambores nos primeiros encontros de rua dos Rastas. Nesses encontros, hinos de ressuscita√ß√£o dos cultos afro-crist√£os conhecidos como pocomania e Si√£o foram adaptados para o desenvolvimento da liturgia Jesus Cristo em todos os textos das can√ß√Ķes. Hinos Garveyistas e at√© o Hino Nacional Et√≠ope Nyahbinghi eram cantados. Naquele tempo o antagonismo entre os grupos Rastas e os Revivalistas cresceu, buru foi naquela √©poca a musica Rastafari, inspirando seus tambores . Buru foi naquela √©poca a m√ļsica mais popular derivada da seculariedade africana em Kingston. Apesar da clara deriva√ß√£o da batida Nyahbinghi, da base, do fundo e do marcador dos tr√™s tambores Burus, as duas tradi√ß√Ķes tem ritmos basais distintos. Todavia, ambos estilos tem antecedentes hist√≥ricos diretos na tradi√ß√£o musical do oeste e do centro da √Āfrica. Ambos t√™m uma organiza√ß√£o r√≠tmicas baseada na intercala√ß√£o das batidas tocadas em v√°rios tambores.

A musica Nyahbinghi √© um compa√ßo retirado do passado Africano, mas a distancia √© musicalmente evidente ate pelos toques improvisados do lider e marcador. A batida Nyahbinghi , com mensagens da Reden√ß√£o Negra, tem sido incorporadas dentro do reggae. Essas con√ß√Ķes populares de liberta√ß√£o s√£o ouvidas hoje mundialmente , dos sound systems de rua de Kingston ate os shebeens do soweto , na Africa do Sul.


I & I – EU PODEROSO

A “conversa Rasta” a forma ritual de se falar , praticada em diferentes graus no movimento , √© especialmente proeminente entre os aderentes da Ordem Nyahbinghi. Considerando o movimento messi√Ęnico e tamb√©m milenar Ras Tafari I encaixe-se na discrimina√ß√£o “anti sociedade” , “uma sociedade estabelecida dentro de outra sociedade” como uma alternativa consciente. √Č um modo de resist√™ncia ao mercado ainda “escravista” da moderna babilonia. A fala Ras Tafari como uma “anti-lingua n√£o √© somente paralela a sociedade , √© de fato gerada por ela”. A anti-lingua cresce quando √° realidade alternativa √© uma realidade contrariada, estabelecida em oposi√ß√£o a realidade subjetiva , n√£o meramente expressando isso, mais ativamente criando e mantendo essa outra forma de express√£o , que nada mais √© que uma a√ß√£o coletiva.

“I and I” (Eu e Eu) √© usado seja onde um pronome aparecer no discurso; substitui ‘voc√™ e eu’. O uso obliquo do pronome expressa a igualdade presumida entre os Rastas. “I and I” significa a identidade comum dos oradores como filhos de Haile Selassie I. Os nomes proferidos pelos Rastas exemplificam a associa√ß√£o do homem e Deus. A enuncia√ß√£o de “I”(eu) quando pronunciado “Jah Ras Tafari I” ou “Haile I SelassieI” conecta a inten√ß√£o pessoal com a vibra√ß√£o divina.

“Quem √© voc√™ ? n√£o h√° nenhum voc√™. H√° somente Eu, Eu e Eu. Eu √© voc√™, Eu √© Deus, Deus √© Eu. Deus √© voc√™ mas n√£o h√° nenhum voc√™, porque voc√™ √© Eu, ent√£o Eu e Eu √© Deus. N√≥s somos todos cada um e um com Deus porque √© a mesma energia de Vida que flui em todos n√≥s”.

Alem disso, a linguagem (I – ance, parlance) Ras Tafari I envolve o remodelamento e ocultamento de itens lexicais para encontrar sua necessidade. Uma t√©cnica comum √© conotar um s√≠mbolo, incrementado o significado da palavra; por exemplo, transformando “opressores” em “depressores”(opressers= downpressers), “pol√≠ticos” em “politruques” (politics = politricks), “entendimento” em “sobreentendimento” (understand = overstand). O uso de algumas palavras pelos Rastas que viviam nas colinas da Jamaica davam significado √† vis√£o que eles tinham dos urbanos; por exemplo “city” (cidade) = “shity”(merda) ou tamb√©m para designar o modelo social – “system” (sistema) = “shitstem” (sistema de merda), “situation” (situa√ß√£o) = “shituation” (situa√ß√£o de merda). Quando a

falta de cultura, no cunho educacional – “education”(educa√ß√£o)= “head-decay-shun” (cabe√ßa- decadente- afastada) e principalmente a

valoriza√ß√£o de personagens europeus hist√≥ricos, ligados √† igreja cat√≥lica e que faziam comercio de escravos negros – “Christopher Colombus” (Cristov√£o Colombo)- “Christ-Come – To- Rob – Us”(Cristo veio nos roubar) fez com que milhares de palavras viessem a surgir no vocabul√°rio denominado de Patois.

Este vasto vocabul√°rio tem a inten√ß√£o de definir o mundo no qual o Rasta vive, tanto o sistema econ√īmico, religioso e politico como tamb√©m a aspira√ß√£o espiritual. Todas as palavras que tem pronome “I” referem-se exclusivamente aos valores ou rituais que os Rastas davam import√Ęncia ; por exemplo, “I-shence” = “icense (incenso),

(maconha) “I-ses” = “praises”(ora√ß√Ķes) , “I- ration” = “Creation” (cria√ß√£o), “Ithiopia” = “Ethiopia” (Eti√≥pia) . “I-wah” = “power”(poder) “I-tes”= “thoughts” (pensamentos).

A compreens√£o da reden√ß√£o africana √© similarmente conotada pelo conceito de “Eu” . “For I” ou “Far Eye” (Para Eu ou Olho que Enxerga Longe) usados em Rastafari I s√£o termos para denominar a vis√£o m√≠stica. A experi√™ncia visionaria √© interna, parte pelo processo de conversa√ß√£o, e ultimamente pela no√ß√£o visionaria que renden√ß√£o √© igual a repatria√ß√£o ; a vis√£o da Africa concorda com a expectativa da salva√ß√£o.


GANJA E DREADS

Justifica√ß√Ķes ideol√≥gicas para o ritual de consumo da ganja (maconha) s√£o comuns entre os Rastas. O uso religioso da erva √© feito pelo processo de planta√ß√£o, colheita e consumo. Os Rastas acreditam no poder da maconha, atrav√©s da abertura de um canal telep√°tico que aumenta a percep√ß√£o da realidade. Tamb√©m se dizem no direito de fumar pelo fato da B√≠blia trazer passagens indicando o consuma da erva p√īr parte dos profetas no Velho Testamento. “Foi encontrado no sepulcro do Rei Salom√£o vest√≠gios de maconha, e de uma esp√©cie muito mais poderosa que a encontrada hoje em dia”.

A Jamaica √© uma das maiores produtoras de ganja no mundo e tamb√©m das mais baratas. Ainda √© ilegal o consumo da erva; p√īr esta raz√£o, muitos Rastas foram mortos e perseguidos p√īr toda ilha. As plantas de maior qualidade encontradas na Jamaica s√£o Lambsbread e Sinsemila.

O Dreadlock, distintamente despenteado e com a barba e o cabelo longo √© outra apresenta√ß√£o da identidade cultural dos Rastas. Muitos jamaicanos inclusive, freq√ľentemente consideram a apar√™ncia desleixada dos Dreads como uma indica√ß√£o de falta de padr√Ķes de limpeza. Eles incorretamente dizem que os Rastas nunca lavam seus cabelos.

Aqueles com dreadlocks s√£o estigmatizados como loucos pela sociedade jamaicana em geral. Os Rastas tamb√©m s√£o conhecidos como “Knotty Dread” (Dread barbudo) ou na linguagem que freq√ľentemente usam- “Natty Dread”. Eles s√£o rejeitados √† empregos basicamente p√īr suas apar√™ncias. Na sociedade jamaicana colonial e p√≥s – colonial , a policia em muitas ocasi√Ķes cortava os cabelos dos Rastas (dreadlocks) como um ato de rejei√ß√£o p√ļblica e controle social sobre o movimento.

Os Rastas cr√™em no poder m√≠stico dos Dreadlocks s√£o entendidos de acordo com a interpreta√ß√£o b√≠blica como o “voto dos Nazarenos”, e tamb√©m como prova de serem eles os “escolhidos” durante esse tempo de julgamento. Finalmente, eles fundamentalizam o crescimento dos dreads como um estado natural de apar√™ncia do Homem , sancionado p√īr Deus. “O brilho dos dreads √© o brilho da luz negra, um ato feito para chamar as for√ßas do Julgamento para fazer o cora√ß√£o perverso cair fora da Cria√ß√£o, para destruir e paralisar todos os depressores”. Dentre outras argumenta√ß√Ķes apresentadas pelos Rastas com rela√ß√£o ao dreadlock, a mais conhecida √© que a barba e os cabelos compridos representam a juba do le√£o, s√≠mbolo da filosofia Rasta.


O LIVRO DA VIDA 

Entre os Rastas √© muito comum a interpreta√ß√£o daas passagens b√≠blicas. A vers√£o b√≠blica do rei James da Inglaterra √© tida como contendo apenas metade do “livro da Vida”. Os pr√≥prios Rastas costumam lembrar que “a outra metade nunca foi contada”. Os Rastas usam a vers√£o Macabeus de origem et√≠ope, considerado o livro integral da Revela√ß√£o. Entre revela√ß√Ķes encontra-se o segredo e o significado dos Sete Selos do Rei Salom√£o.

“E Eu chorei muito p√īr nenhum homem ser merecedor de abrir o livro nem soltar os Sete Selos. E um dos anci√Ķes disse, “N√£o chore, contemple o Le√£o da tribo de Jud√°. A raiz de Davi foi capaz de abrir o Livro e soltar os Sete Selos, e Eu contemplei, e no meio do trono, no meio dos anci√Ķes , um cordeiro foi morto p√ī sete chifres, de sete olhos, e dos sete esp√≠ritos de Jeov√° eterno, enviado adiante p√īr toda a terra , e Ele veio e tomou o livro na m√£o direita de Sua Majestade Jah Ras Tafari I que est√° sentado no Trono”. E o s√©timo Selo foi libertado. O S√©timo Selo √© conhecido como Haile Selassie I , o Primeiro da Eti√≥pia”.


HIS

O significado de Haile Selassie I em rela√ß√£o aos Sete Selos foi revelado a um lider de uma comunidade Rasta em uma Vis√£o. Em fazendo p√ļblica sua vis√£o, ele se auto – proclamou em uma posi√ß√£o de lideran√ßa prof√©tica p√īr sua habilidade em interpretar o significado do sinal revelado.


OS “ELDERS” ANCI√ēES

Diferente da Igreja Ortodoxa Et√≠ope das Doze tribos de Israel e da Comunidade do Principe Emmanuel (todas essas congrega√ß√Ķes Rastas), a ordem Nyahbinghi n√£o tem um √ļnico local permanente e central para suas celebra√ß√Ķes, e nem mesmo se esmeram na figura de um s√≥ l√≠der. Na verdade, os pr√≥prios Nyahbinghi clamam que cada individuo √© um templo em si mesmo, e deste modo desdenham aqueles que enfatizam o uso de constru√ß√Ķes como essencial para as celebra√ß√Ķes comunais.

A Ordem Nyahbinghi n√£o tem uma corpora√ß√£o organizacional formal com membros nomeados ou eleitos, onde as decis√Ķes s√£o tomadas p√īr seus associados. O Imperador Haile SelassieI √© reconhecido como a “cabe√ßa” da Ordem Nyahbinghi. Sua indisput√°vel autoridade espiritual serve como uma barreira efetiva para a forma√ß√£o de um conselho elitista regulador. Os mais velhos, os “elders” fazem parte da lideran√ßa operacional dos Nyahbinghi, baseada principalmente no carisma. O reconhecimento daas habilidades sociais e espirituais, juntamente com o tempo de compromisso ao movimento determina um Rasta ser um “elder” (anci√£o). Aqueles que s√£o competentes em conduzir uma celebra√ß√£o e tem o conhecimento da tradi√ß√£o Rastafari emerge como um l√≠der dentro de sua congrega√ß√£o.


REGGAE 

Chegando o final da d√©cada de 60 , muitos Rastas se vira, em condi√ß√Ķes de extrema pobreza, banidos economicamente do sistema capitalista. Em sua maioria , os Rastas procuram se manter financeiramente atrav√©s da arte, em especial a artesanato. √Č bem reconhecida a habilidade dos Rastas em esculpir pe√ßas de motivo africano; como m√°scaras, est√°tuas e s√≠mbolos b√≠blicos.

Mas onde melhor a cultura Rasta se propagou foi na musica, com o Reggae . A origem do Reggae √© o Ska, um ritmo acelerado com instrumentos de metal, oriundos da musica negra americana dos anos 50 e 60. Da metade para o final da d√©cada de 60, o Ska se tornou mais lento, dando origem ao Rocksteady. Os metais deixaram de ser os instrumentos que marcavam a musica, e em seus lugares foi inserido a percuss√£o africana com a batida da guitarra num estilo Rock. Esse ritmo a partir do inicio da d√©cada de 70 passou a ser mais lento ainda e com outro nome , agora o Reggae. A maioria dos cantores e bandas famosas da Jamaica passaram por esses tr√™s estilos de ritmo, enter elas os “Wailers”, grupo formado em seu in√≠cio por Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer (considerados profetas musicais pelos Rastas).

A industria fonografica jamaicana teve um avanço incrível nas décadas de 60 e 70, apenas pelo fato de varias bandas e cantores, todos Rastas, aparecerem no cenário musical . O Reggae é tido pelos próprios Rastas como sendo a musica de Jah (Deus), primeiro por Ter a mesma batida do coração e depois pelas mensagens, com letras principalmente de caráter religioso e de protesto racial e político.

“Rivers of babylon”

The Melodians
Adaptado do salmo 137:1
By the rivers of Babylon,
Where we sat down,
And there we wept
When we remembered Zion
Pelos rios da Babil√īnia,
Onde nos sentamos,
E l√° choramos
Quando lembramos de Si√£o
Oh,the wicked
Carried us away in captivity,
Required from us a song,
How can we sing
King Alpha’s song
Inna strange land?
√Ē, o poderoso
Nos levou aprisionados,
Nos exigiu uma canção
Como podemos cantar
A canção do Rei Alfa
Numa terra estranha?
So, let the words
Of our mouth and the meditation
Of our heart
Be acceptable in Thy sight
Ent√£o deixe que as palavras
De nossa boca
E a meditação
De nosso coração
Seja aceit√°vel em Vossa vis√£o
Oh, Fari I!

√Ē, Meu Deus!


Fontewww.delfareggae.com.br

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